O fim

20/02/2008 by

Como quase todos os projetos, este também chegou ao seu fim. Ainda existem milhões de histórias e lições aprendidas pra contar. Mas elas vão ficar para acompanhar as cervejas do dia a dia da vida aqui embaixo. Pra sempre.

Já estamos aqui seguindo com nossas vidas, quase igual era antes de partirmos. A diferença é que antes havia muita expectativa e ansiedade. Agora há uma mistura de nostalgia, que vai passar rápido, e um questionamento constante sobre tudo. Difícil explicar. Nem vou tentar. Quem já foi sabe como é.

Agradecemos de coração o carinho de todos que participaram desse blog. Vocês não imaginam o quanto foi importante pra nós todas as mensagens de apoio que recebemos.

Até a próxima.

Carlão

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Escalando o Ojos del Salado

19/02/2008 by

Eram 20h30min no Refúgio Tejos (5.830m). O dia ainda estava claro. Foi quando entraram dois indivíduos com as caras mais assustadas pela porta do abrigo. Os rostos estavam pálidos e as roupas cobertas de gelo. Estavam voltando do cume. Os dois estavam exaustos, mas conseguiram nos contar as dificuldades da montanha. Muita nave fofa e muito vento frio. Levaram 10h pra fazer o cume. Eram montanhistas noruegueses experientes com passagem até pelo Himalaya. Como eu e Márcio, eles também tinham feito o Aconcágua poucos dias antes. Porém com apenas 6h no dia do cume. Eu havia feito em 11h e o Márcio em 13h. Nós, brasileiros, nos entreolhamos e pensamos: vai ser foda.

A escalada do Ojos del Salado teve este tom em todos os momentos. Como sinais de aviso para quem estava achando que a escalada seria tranqüila. Ou até possível. Quando encontramos o outro grupo em Mendoza, já recebemos o primeiro. A escalada deles no Cerro Plata foi confusa e o grupo estava meio rachado. Nunca eu e Marcio imaginaríamos isso. Por outro lado, eu e ele estávamos bem tranqüilos e confiantes. A escalada do Aconcágua havia nos deixado mais seguros dos nossos planos e mais unidos do que nunca. Teoricamente, o Aconcágua havia sido nosso objetivo mais difícil.

Outra notícia era que mais um amigo nosso de BH tinha se unido ao grupo. Era o Pedrinho. Escalador forte e especialista em técnicas verticais. Então o time para o Ojos estava formado por oito pessoas: eu, Marcio, Maduro, Maguinho, Marcelo, Pedrinho, Acácia e Andrezão.

A ida pra Santiago já foi uma prova de que o time não estava alinhado. Uns foram domingo, outros na segunda de manha, outros na segunda à tarde. Eu, Marcio e Maguinho fomos segunda à noite, conforme tínhamos combinado no dia anterior. Mas todos chegaram a Santiago bem e ficamos no mesmo hotel, no centro da cidade.

Resolvemos ir para Copiapó no dia 16 de dia. Chegamos às 22h e só conseguimos uma pensão bem simples pra ficar. Jantamos num bom restaurante próximo e fomos logo dormir. O dia seguinte seria cheio e queríamos estar no deserto até o final do dia. Mas quase não foi possível. Foi difícil achar as duas pick-ups 4×4 para alugar. Mais tempo para as permissões para escalar na agência. E, finalmente, as compras demoraram muito mais do que esperávamos. Saímos de Copiapó às 18h.

Além dos carros serem 4×4, levamos em cada um dois estepes, galão extra de combustível (não existem postos no deserto) e correntes para colocar nas rodas em caso de ter muita neve. Outra coisa que não pode faltar é água. Tivemos que levar toda a água que iríamos consumir.

Tivemos problemas para passar na aduana chilena por causa do horário (21h). Lá fechava às 19h. Mas com jeitinho e uma boa conversa, nos liberaram. As 23h chegamos ao abrigo Cláudio Lucero (4.530m). Estar previamente aclimatado era fundamental para essa viagem, pois saímos de 500m de altitude e em 5h, chegamos a 4.500m.

No abrigo havia dois americanos e um guia chileno. A construção era grande e confortável. O plano era ficar por lá duas noites. O outro grupo não estava totalmente aclimatado e precisava desse tempo. Eu e Márcio não precisávamos mais aclimatar, mas resolvemos usar um dia a mais de nosso cronograma para esperar o pessoal. Ter três dias de contingência no plano ajudou muito nessa hora. Tínhamos a tranqüilidade de absorver imprevistos como este.

Dia seguinte ficamos tomando sol na varanda e a tarde nós fomos conhecer a Laguna Verde. E ela é linda. Cercada de vulcões por todos os lados. Além disso, brota água quente em suas margens. Existem duas pequenas piscinas para quem quer curtir um banho. Lá fica também mais um abrigo onde sempre tem um guarda-parque. Na Laguna os visitantes têm que acampar. O abrigo possui todos os equipamentos médicos para o caso de alguém passar mal. Inclusive uma câmara hiperbárica. Só falta um detalhe. Não tem médico.

É interessante mencionar que a infra-estrutura para escalar os vulcões da região tem quatro abrigos, todos com camas ou área para camping, banheiros (sem banho, é claro!) e área para cozinhar e comer protegidos do tempo (ou era no próprio abrigo ou em barracas grandes).

Na volta da laguna alguns do grupo subiram um morro em frente até uns 5mil metros para aclimatar. Depois voltamos para o abrigo. No dia seguinte acordamos sem pressa para nos preparar para subir para o Abrigo Atacama (5.300m). Seria o ponto final para os carros. Pedrinho e Acácia estavam se sentindo mal. Mas no caso do Pedrinho parecia ser apenas uma dor nas costas e talvez uma gripe.

Almoçamos e subimos. Foram 24 km de estrada muito ruim onde foi realmente necessário usar o 4×4 dos carros. Chegando ao abrigo, armamos nossas barracas e colocamos nossa comida numa das barracas cozinha. Havia no acampamento dois grupos de italianos e um casal de americanos. Os americanos ainda iriam subir. Os italianos já haviam tentado o cume sem sucesso. Reclamaram muito da quantidade de neve na montanha. E do vento. O guarda-parque que estava no local aproveitou e disse que nenhum grupo havia conseguido chegar ao cume desde a última nevasca na segunda semana de janeiro. Mais uma notícia “animadora”.

Pedrinho se sentia cada vez pior. Reclamava da dor nas costas e da gripe. Até então ninguém tinha ligado esses problemas a uma possibilidade de mal da montanha. Mas quando ele saiu da cozinha pra vomitar, a minha ficha caiu. Tinha alguma coisa muito errada e resolvemos procurar ajuda para medir a oxigenação dele. Por sorte os italianos estavam com um oxímetro e um médico na equipe. Ficamos impressionados com o resultado: 56.

De toda a nossa falta de experiência em alta montanha, essa foi a pior. Com essa medida, Pedrinho não passaria daquela noite. Teria que descer imediatamente. Eu e Marcelo o levamos para o Refúgio da Laguna Verde (4.200m) para ele se recuperar. Lá teria a assistência necessária. Mas na correria, ele esqueceu de pegar os documentos e com isso não pode pegar uma carona pra voltar a Copiapó no mesmo dia. Deixamos o Pedrinho lá aos cuidados do pessoal do parque e voltamos para a montanha.

Eu já estava dormindo às 23h quando o Maguinho me chamou do lado de fora da barraca. O guarda-parque veio nos avisar que o Pedrinho piorou e teria que descer imediatamente. Quando cheguei na roda que estava decidindo o que faríamos, Maduro já estava gritando que iria descer. Não precisei de 5 segundos pra concluir que iria perder dois amigos se ele fosse levar o Pedrinho sozinho devido ao seu péssimo senso de orientação. Os carros estavam com o combustível no limite. Não poderia haver erros no caminho. Eu sabia o caminho e ponderei que já estava aclimatado. A descida não iria me atrapalhar muito. Só perderia a noite de sono.

Discuti a estratégia com o Márcio. Eu iria resgatar o Pedrinho e ele faria o porteio para Tejos por nós. Na hora de sair, Andrezão resolveu ir também. Quando chegamos à Laguna à meia-noite, Pedrinho estava péssimo. Era mesmo preocupante. O colocamos no carro e partimos. Fomos orientados a passar por fora da aduana chilena, no meio das casas dos Carabineiros (polícia chilena). Se alguém aparecesse, era para parar. Se não, eles seriam comunicados pelo radio de manhã. Passamos devagar e como ninguém apareceu, passamos sem problemas.

A bruxa tava solta. Depois de 3h de viagem eu e Andrezão começamos a ficar enjoados. O jantar ainda estava no estomago e eu tinha bebido muita água na viagem. Parei uma hora e vomitei só a água. Melhorei. Andrezão resolveu com um Plasil.

Chegamos a Copiapó às 4h da manhã e não achamos o hospital. De qualquer forma, Pedrinho havia melhorado muito. Era outra pessoa. Então resolvemos ir para um hotel dormir. Depois de muita procura, achamos um bem caro. Como não tinha outra opção, ficamos lá mesmo. O pior é que quem sonhava com um banho (todo mundo) ficou frustrado. Tinha um aviso de todo tamanho no balcão do hotel dizendo que não haveria água no dia seguinte devido à manutenção das caixas d’água. É mole?

Dormimos umas 3h e levamos o Pedrinho no hospital. As radiografias do pulmão comprovaram a suspeita da dor nas costas. Tinha tanta água em seus pulmões que eles estavam pressionando a coluna. Que loucura. Mas ele estava cada vez melhor e precisaria de poucos dias pra ficar recuperado. Mas não o suficiente para ele voltar pra montanha. Ele não teria outra opção a não ser nos esperar ou voltar pro Brasil. Resolveu voltar pra casa.

Confesso que depois que me despedi do Pedrinho, aquela imagem dele sozinho no hospital ficou na minha mente por vários dias. Poderia ter acontecido com qualquer um. E quase aconteceu comigo no Aconcágua. Talvez por isso que eu entendia bem o que devia estar passando na sua cabeça. Tive mais paciência enquanto esperava as noticias no hospital e estava disposto a fazer o que fosse necessário para que ele ficasse confortável e bem encaminhado quando partíssemos.

A dor. Tenho certeza que ele se afundou em milhões de pensamentos para superar a angústia de não ter conseguido escalar a montanha. De ter adoecido. Da derrota. Isolando-se de tudo e de todos. Imaginando que dali pra frente teria que enfrentar aquilo tudo sozinho. As pessoas perguntando o que aconteceu e ele tendo que dar mil explicações. Quem ama o montanhismo sabe o que eu quero dizer. Mas na verdade eu sei que nessas horas o que a gente mais quer é apoio dos amigos e parceiros. Eu tinha que estar ali.

Ficamos com ele até umas 16h e tivemos que partir. Não queríamos passar na aduana chilena depois das 19h para não ter que escutar outro sermão dos Carabineiros. Chegamos ao Refúgio Atacama às 21h e encontramos todos preocupados por dois motivos: queriam saber notícias do Pedrinho e que a montanha estava perigosa e difícil. Nunca havia visto o Márcio tão serio na minha vida. Ele estava preocupado com a escalada. Resolvemos fazer uma reunião para traçar a estratégia para tentarmos o cume ainda intocado depois da nevasca.

Quem fez o porteio até a base da montanha e viu a rota e a quantidade de neve, demonstrou apreensão. Definimos horários e equipamentos necessários daquele momento em diante. Como seria a subida e a descida, além de outros detalhes. Pra completar, a turma acabou conversando e se entendendo sobre os problemas que tiveram no Cerro Plata. Enquanto a conversa rolava, Márcio olhava pra mim e sorria com satisfação. Ele sabia que tinha um dedo meu naquilo. Mas era tudo o que a gente queria. No fundo, o que todos queriam. Que todo mundo escalasse a montanha sem encanações e ressentimentos. E foi assim dali pra frente.

Dia seguinte desmontamos o acampamento e colocamos o que não levaríamos nos carros. Deixamos apenas uma barraca armada caso alguém precisasse voltar. O plano era fazer o cume no dia seguinte e já descer direto pra pegar os carro e voltar pra Copiapó. Plano bem otimista, não?

Subimos depois de almoçar. Um desnível de 530m em 4 km de trilha. Chegamos a Tejos e nos acomodamos. Acácia chegou e resolveu desistir e descer naquela hora mesmo. Disse que estava muito cansada e com dores de cabeça. Que não queria atrapalhar o resto do grupo e coisa e tal. Nada a convenceu de ficar. Pegou as suas coisas e partiu.

Vimos que havia pertences de duas pessoas e achamos que eram dos americanos que subiram na nossa frente. Mas ninguém apareceu até às 20h e achamos que não viriam mais. Os verdadeiros donos chegaram as 20h30minh. Do cume. Muito cansados e morrendo de frio. Eram os noruegueses.

Eles foram muito displicentes com o horário, pois saíram muito tarde (7h) para a escalada. Pegaram muito vento e frio no final do dia. Mas foram os primeiros a restabelecer a rota para o cume e isso, por um lado, nos animou. Deram boas dicas sobre a rota e nos alertaram mais uma vez sobre a neve muito fofa.

Tive que dormir no chão, pois não tinham camas para todos. Bom… Eu tentei dormir. A altitude e a ansiedade não me deixaram pregar o olho. Meu cérebro trabalhou intensamente naquela noite. Pensei em tudo várias vezes.

Acordamos às 3h, comemos e nos preparamos pra sair. Andrezão resolveu não subir também. Disse que não dormiu nada a noite e sentia dores de cabeça. Resolveu descer quando o dia clareasse. Do time inicial de oito pessoas, apenas cinco iriam tentar o cume.

As 4h eu sai e abri a fila da subida. A lua estava cheia e maravilhosa. Dava pra ver quase tudo na montanha. Mas antes de chegar ao glaciar, comecei a ter problemas com meus óculos. Ficavam embaçando o tempo todo e quando tirava as luvas para arrumar, meus dedos congelavam. Com isso fui perdendo tempo e a turma foi se distanciando. Uma hora decidi tirar os óculos. Mas o ceguinho aqui penou até o dia começar a clarear. Acabei pegando uma rota direta no glaciar. Só via as lanternas balançando muito longe. Mas percebi que as duas rotas se encontravam no final do glaciar, uns 300m acima de mim.

Nesse momento eu passei a escalar com muito cuidado. A inclinação devia ser de uns 40o, o que não era tão complicado. Mas quando eu olhava para baixo, via a rampa com mais de 300m de gelo pra baixo. Se eu escorregasse ali, poderia sumir e ninguém saber onde estava. Troquei os bastões pelo piolet para travar uma eventual queda e toquei pra cima. Já no final do glaciar fiz uma travessia para a esquerda, momento mais perigoso da subida. Finalmente cheguei à rota normal. Escalei tão rápido que alcancei o resto da turma.

Como era de madrugada, o gelo estava mais duro e não afundávamos tanto na neve. Mas quanto mais subíamos, mais fofa ficava a neve. Por volta do meio dia chegamos na cratera do Ojos. Parecia que o fim estava próximo. Mas nos enganamos. Ainda teríamos que contorná-la e subir mais uma rampa de uns 150m para chegar à parte de rocha da escalada. Pra piorar, a neve era tão fofa que às vezes afundávamos até quase a cintura. E isso era muito desgastante.

No meio da subida, Maduro começou a fraquejar. Não havia comido direito de manhã e estava perdendo as forças. Sua subida passou a ficar muito lenta. Mas sempre tinha alguém o acompanhando para ele não ficar só. Na última rampa chegou a cogitar desistir, mas o Maguinho não deixou. Faltavam apenas 150m.

Márcio foi o primeiro a chegar à corda fixa (trecho de rocha com uns 50m de escalada). Era o último obstáculo para o cume. Só ali eu passei acreditar que realmente conseguiríamos. Até olhar pra trás e ver a tempestade chegando. Impressionante como o tempo virou rápido. Subimos mesmo assim. Cheguei ao cume logo depois do Márcio e comemoramos muito. Fiquei emocionado com a garra e sorte que tivemos em todos os momentos dessa viagem. Conseguimos chegar nos dois cumes que planejamos por tantos meses. Mas não tinha acabado ainda. Faltava descer. E com a tempestade, o perigo aumentou consideravelmente.

O vento foi aumentando e começou a nevar. Fizemos algumas fotos no cume e começamos a descer. Marcio foi acompanhando Maduro que estava bem fraco e caia toda hora. Lembrava o próprio Márcio na descida do Aconcágua. Quando afundava na neve tinha dificuldade pra sair. A tempestade ia piorando e a visibilidade era cada vez menor. Quando chegamos de volta à cratera, Marcio e Maguinho seguiram descendo para acompanhar o Maduro. Eu fiquei esperando o Marcelo que teve algumas dificuldades na descida.

Quando ele chegou, o pessoal já estava longe e não vimos por onde foram. Acreditei que o Marcelo sabia o caminho e o segui até que começamos a descer uma rampa com neve muito fofa. Algumas vezes afundávamos até a cintura. Tinha alguma coisa errada. A tempestade piorou muito e nevava muito. Não conseguíamos ver nada além de uns 20m. Ficamos parados e indecisos do que fazer. Continuar descendo ou voltar e procurar a rota correta.

Depois de muita hesitação, decidimos subir. Estava muito cansado e não queria subir de novo, mas vi que não teria outro jeito. O tempo deu uma limpada e chamei o Marcio no rádio para perguntar qual a rota. Ele estava já fora do glaciar e estava acompanhando nossa descida de longe. Ele já havia tentado falar com a gente várias vezes para não descermos mais, pois cairíamos numa greta. Sem visibilidade e sem corda… Imagina a merda.

Confirmamos que acertamos em subir de volta. Marcelo jurava que o caminho era aquele, mas, com mais visibilidade, consegui identificar a rota de subida e fiz um atalho, cruzando o glaciar por onde ninguém tinha passado. Mais um momento de tensão. Passamos sem problemas e caímos na rota normal. Daí pra frente foi tranqüilo.

Chegamos ao abrigo uma hora depois de todos. Estava com tanto frio que meu relógio de pulso que estava protegido pela minha roupa, marcava apenas 15o (o termômetro marca a temperatura externa com influência da temperatura do corpo). Todo mundo estava dentro dos seus sacos de dormir se aquecendo. Fiz o mesmo. Não ia sair dali até o dia seguinte. Desistimos de descer no mesmo dia.

Dia seguinte acordamos cedo e descemos. Pegamos o carro que ficou no refúgio Atacama e fomos encontrar a Acácia e Andrezão que estavam no refugio mais abaixo. Muita comemoração ao encontrá-los. Arrumamos toda a carga e seguimos pra Copiapó. Chegamos por volta das 15h. Compramos as passagens para Santiago no mesmo dia e às 23h partimos pra capital chilena.

Para o Marcio e eu, era o final de uma grande expedição. A maior de nossas vidas. E com certeza, a mais marcante até hoje. Nossos objetivos eram bem desafiadores, mas nós saímos do Brasil confiantes. Chegando lá percebemos que não seria bem assim. Fomos colocados à prova em vários momentos. E com muita habilidade e sorte superamos todos os obstáculos. E aprendemos muito. Muito mesmo. Sobre as montanhas, sobre escalar, sobre as culturas que visitamos e, principalmente, sobre nós mesmos.

Carlão.

São Paulo e mais fotos

27/01/2008 by
Estamos no aeroporto, esperando a hora do voo para BH. Os dedos continuam congelados. Hehehe! A ansiedade em ver a família é sufocante, mas já dá saudades dos amigos e da convivência com as montanhas. Agora é chegar em casa, deixar a poeira baixar e retomar a rotina da vida. Mais uma vez gostaria de agradecer a todos e principalmente ao Carlao: Não é fácil passar 30 dias juntos sem desentendimentos e sem problemas. Mas posso dizer que fomos 100%, pois não brigamos, não nos atrapalhamos e conseguimos atingir todos os objetivos propostos.
Márcio

Acabei de publicar o restante das fotos do Aconcágua e as fotos do Ojos del Salado. Enquanto não terminamos de escrever os diários, vocês podem ir curtindo as fotos.

Carlão

Santiago

26/01/2008 by

Estamos num hotelzinho em Santiago. Ontem ficamos num botequim vazio, tomando “chop” até as 3 da manha. Hoje parte da turma já comeca a ir embora. O pior é que temos uma capacidade enorme de esquecer os “sofrimentos” e já comecar a pensar em novos desafios. Em apenas dois dias nossos organismos já estao quase totalmente recuperados. Ontem discutimos bastante os acontecimentos, situacoes, relacionamentos, aprendizados… e tenho certeza que aprendemos muito e queremos mais.

Marcio

Ojos del Salado – Cume

24/01/2008 by

Acabou! Conseguimos. Escrevo com os dedos congelados, portanto pouco. Fomos num grupo de oito. Quando chegamos no acampamento Atacama o Pedrinho comecou a passar mal. O Carlao, Maduro e o Andre foram com ele pra Copiapo. Ele teve edema pulmonar. Fizemos o primeiro porteio pro refugio Tejos, 5830 mts. Quando vi a rampa de gelo, fiquei bem preocupado. Quando os meninos chegaram de Copiapó fizemos uma reuniao aonde foi lavada alguma roupa suja do outro grupo, organizamos nosso ataque e preparamos nosso espirito pro dia seguinte. O Andre nao dormiu bem e desistiu na saida. Iiniciamos o ataque as 4 da madrugada. Minhas maos congelaram imediatamente. Foi uma subida muito dura, com neve na cintura muitas vezes. Atingimos o cume as 14h10min. Assim que iniciamos a descida comecou a nevar muito. Ficamos perdidos, o Maduro desceu rastejando, o Maguinho caiu uns 50 mts, Carlao e Marcelo pegaram a rota errada, mas no final deu tudo certo. Estou louco pra ver minha familia, esposa, filhos e morrendo de saudades. Espero que minha vontade de escalar demore bastante a voltar. Muito obrigado por todos os votos de incentivo.

Marcio

Coiapó

17/01/2008 by
Depois de uma viagem de 12 horas de onibus, tivemos uma noite agradàvel e estamos nos preparativos finais para o Ojos. Agora somos 8, sendo que o Marcelo ja esteve por aqui e esta nos dando todas as dicas. Até as 14 horas devemos estar com tudo arranjado. Todo mundo já comeu pra caramba, descansou e está ansioso pela “ralacao”. A partir de agora ficamos sem contato.
Márcio

Fotos

16/01/2008 by

Bom pessoal,

 os nossos super-heróis, depois das pendengas que passaram, me enviaram algumas fotos para serem publicadas no blog. Criei uma nova página com as fotos da expedição.

Como o tempo é curto e o trabalho para publicá-las aqui não é pouco, vou fazendo isso aos poucos.

Abraços,

 Flaviano Bayão

Notícias e `causos´

16/01/2008 by

Notícias

Estamos em Santiago e daqui a pouco vamos seguir para Copiapó. Serao 12h de viagem de ônibus. As duas turmas juntas (eu, Márcio, Maguinho, Marcelo, Maduro, Acassia, Andrezao e Pedrinho). BH vai invadir o Atacama.
Causos

No Aconcágua existem duas preocupacoes muito grandes em relacao ao turismo: a preservacao ambiental e a saúde das pessoas. Quanto a saúde vocês já sabem. Tem médicos pra todos os lados, helicópteros, etc. Sao super atentos e atenciosos com os turistas. E bem conservadores nos diagnósticos. Qualquer probleminha, mandam descer a montanha. Se nao der, vai voando.

No meio ambiente pudemos notar que o lugar é bem limpo. Na medida do possível, é claro. Mas limpo. Na entrada do parque (Horcones) recebemos um saco de lixo com o nosso numero de controle. Temos que devolver na saída e isso é registrado na nossa ficha. Temos que cuidar de todo o nosso lixo. O controle é razoavelmente bom. Mas acredito que o nível cultural dos turistas que se aventuram naquele lugar isolado contribui para isso.

Mas o mais interessante é o material que recebemos em Plaza de Mulas. Quem vai subir a montanha, recebe um saco também numerado com as iniciais MF (material fecal). Isso mesmo que vocês pensaram. Quem sobe a montanha tem que trazer sua própria merda pra baixo. Olhei bem pro Márcio e ficamos imaginando como faríamos pra fazer naqueles sacos… Bom, lá em cima a gente resolve.

Mas o que se vê é que muitas pessoas nao respeitam isso e fazem em vários lugares da montanha. Existem os ´banheiros´ ao ar livre e isso é muito ruim. Acredito que a organizacao do parque esteja querendo mudar isso.

Mas resumindo, nos três dias que ficamos lá em cima, nao geramos nada de MF. Meio sem vontade ou meio sem coragem por causa do frio. Nada. O que geramos pra valer lá em cima mesmo foram gases. Na altitude, e com a nossa alimentacao ´instantânea´ geramos mais é gases. Por isso na próxima vez eu vou sugerir para distribuírem baloes ao invés de sacos. Assim vamos preservar melhor a camada de ozônio, o ar da barraca e ainda teremos um combustível ecológico alternativo para nosso forageiro.

Carlao

Efeitos da altitude

14/01/2008 by

Tá meio estranho voltar a utilizar um teclado de computador. As pontas dos meus dedos ainda estao meio dormentes. Um princípio de congelamento no dia seguinte ao cume. Estávamos desidratados e ventava muito. Muito frio. Mas precisávamos descer. O Márcio estava muito debilitado e o tempo iria piorar. O vento nos jagava no chao, queria arrancar a barraca das nossas maos. uma loucura… fugimos de lá.

Vai demorar a passar essa sensacao. Eu fecho meus olhos acordado ainda vejo cada instante que passamos na montanha. Quando eu lembro que cheguei a acreditar que nao conseguiria chegar ao cume devido a tantas dores e que meu pulmao comecou a fazer água (edema), meus olhos se enchem de lágrimas. Nao imaginava que teria que superar estes problemas pra escalar o Aconcágua. Esperava por problemas diferentes. Mais técnicos talvez. Acredito que sozinho, eu ou o Márcio nao teriamos conseguido nosso objetivo. Mas como um time, tivemos sorte e competência pra chegar lá.

Eu estive sem escrever no blog este tempo todo. Deixei a tarefa para o Márcio que estava mais empolgado no comeco e porque a internet estava muito cara. Mas vou tentar resumir aqui o que se passou na minha cobeca nestes 13 dias dentro do vale do rio Horcones.

Nossa ida para a montanha foi muito bem planejada e corrida. Saímos de Sao Paulo no dia 27 e no dia 29 as 17h já estavamos caminhando pra Confluência (3.300m). Neste curto espaco de tempo estivemos em Santigo e Mendoza onde compramos equipamentos e mantimentos. Dormimos muito pouco. Quando chegamos em Confluência, medimos nossa oxigenacao e eu até estava melhor que o Márcio. Mas durou pouco. No dia seguinte caminhamos ida e volta 9h para Plaza Francia (4.200m) para aclimatacao e a minha cabeca comecou a doer sem parar. Fiquei naquele dilema se tomava Tylenol ou nao. Porque se você toma remédio, demora mais a aclimatar. Mas eu nao conseguia dormir. Preferi tomar e dormir. Até sonhei. Sonho bom.

No dia seguinte, caminhada de 8h saindo de Confluência para Plaza de Mulas (4.370m). Nao preciso dizer que minha cabeca explodiu de novo. Era virada do ano e até que estava bem na comemoracao. Novamente tomei remedio pra dormir, mas já nao conseguia dormir direito mais. Dia primeiro era de descanco, mas chegou no final do dia e as dores voltaram. No dia 2 fomos fazer o primeiro porteio (levar material de acampamento) para Nido de Condores (5.500m). Mas quando cheguei a Pendientes (5.300m) minha cabeca voltou a doer forte e, pior, nao conseguia falar. as pessoas me perguntavam as coisas e nao conseguia articular a fala, apesar de conseguir pensar nas respostas. O Márcio estava bem e tocou pra cima enquanto eu comecei a descer lentamente.

De volta a Plaza de Mulas, mais dores e a confianca abalada de vez. Tive mais uma noite péssima que quase nao dormi. Uma mexicana (Pat) que estava no meu alojamento e também havia ido para Nido passou muito mal a noite e tiveram que chamar os médicos. No dia seguinte bem cedo o helicóptero veio buscá-la. Mas antes de descer, ela comentou com o Márcio que percebeu que eu nao estava bem e deveria ir ao médico.

Era impressionante. O tempo todo o helicóptero descia com duas ou três pessoas do acampamento base. Ficava impressionado com o número de pessoas adoecendo. Quando fui no médico a primeira vez, nao pude ser atendido porque estavam atendendo um caso grave. De repente saem um monte de europeus da sala, quase todos chorando e mais três pessoas sao evacuadas pelo helicóptero.

Márcio estava se sentindo ótimo e empolgado. Falava pelo time. que estávamos bem. Mas eu sabia que nao estava. Nao conseguia entender porque nao estava me aclimatando. Tinha feito tudo certo. Já tinha passado por isso. Mas estas coisas nao tem muita explicacao. Cada um tem seu tempo de aclimatacao. E eu estava ficando pra trás. Estava colocando em risco a nossa programacao.

Confesso que comecei a ficar com medo dos medicos me mandarem descer. As dores nao passavam, apesar de eu continuar a comer normalmente e nao ter enjôos. Mas eu nao dormia. A tarde fui fazer meu exame e tive as piores notícias. Fui examinado por duas médicas. Minha oxigenacao estava 76 (ja deveria estar em 85) e havia um barulho no meu pulmao direito. Provavelmente havia um pouco de água. Pediram pra fazer mais um dia de descanso.

Fiquei arrasado. Minha auto-estima foi lá embaixo. Estava adoecendo. E precisava tomar uma decisao. O dia seguinte seria pra um novo porteio. Mas o Márcio queria esperar mais um dia pra me recuperar e subirmos de uma vez. Pensei muito. Pensei nas minhas chances e nas do Márcio. Nao seria justo pra ele ficar me esperando muito tempo. Talvez eu nao me recuperasse. Se eu subisse, meu edema poderia ser pior. Eu tinha que estabelecer uma meta, um limite para a espera e se nao cumprisse, deveria deixá-lo subir sozinho. Ficaria arrasado com isso, mas era o certo a ser feito.

Conversamos bastante e o Márcio topou a minha idéia. Ele subiria no dia 4 para mais um porteio e eu desceria até 4.100m e ficaria algumas horas para ver se me recuperava. No dia 5 descansaríamos e eu faria novo exame. Se o médico me liberasse, subiríamos juntos no dia 6. Se nao, ele subiria sozinho.

Acho que aquela foi a minha pior noite. Nao dormi direito mais uma vez e nao parava de pensar e rezar ao meu jeito, pedindo sorte e melhora do meu estado. Fiquei deitado e escutei o Márcio saindo bem cedo. Foi a pior sensacao que se poderia ter na montanha. Eu ficara pra trás porque nao estava aguentando a altitude.

Escalar alta montanha é uma atividade solitária. Por mais que você esteja numa equipe de amigos, você passa a maior parte do tempo sozinho, envolto em seu pensamentos. As caminhadas sao longas e você precisa dosar a respiracao. Nao dá pra ficar conversando. O vento também nao permite conversas. Com todos os meus problemas, me fechei mais ainda e passei a procurar uma saída. Tinha que me agarrar em alguma coisa. tinha que fazer alguma coisa.

Lembrei das histórias sobre o pensamento positivo. Cantar alguns mantras. Escutar músicas boas no meu MP3. Comecei a ler o livro do Lance Armstrong. Comecei a escrever. E foi assim que eu desci para os 4.100m e fiquei lá por duas horas. Sozinho. Olhando a montanha e conversando com ela. Procurando alguma coisa intangível.

Nao há explicacao. Mas as minhas dores acabaram. Eu subi para o Refúgio tranquilo. Encontrei o Márcio cansado do porteio. Mas eu estava me sentindo bem. Alguma coisa aconteceu. No dia seguinte fui no médico a minha saturacao chegou finalmente a 82. Meu pulmao estava limpo. Eu poderia subir. Renasci das cinzas após cinco dias. E vi a alegria do meu parceiro. Isso nao era certeza de sucesso, mas deu novo ânimo pra nós. Subiríamos no dia seguinte pra tentar o nosso sonho. Havia chagado a hora com um dia de atraso. Seriam os quatro dias mais intensos da nossa expedicao.

Subimos logo cedo com as mochilas cargueiras pesadas. Como nao havia feito um porteio, tinha muitas coisas pra levar. Sacos de dormir, fogareiro, combustível e roupas. Fomos muito lentos e chagamos a Nido com pouco menos de 8h de subida. Armamamos a acampamento, pegamos gelo e arrumei a cozinha. Fiz a janta (miojo com queijo) e água para passar a noite. O dia seguinte seria de descanco e decidimos atacar o cume de Nido mesmo.

Para a água nao congelar, enchi as duas garrafas térmicas e as duas pets. Só que as pets tinha que ficar dentro do saco de dormir para nao congelarem com a temperatura do nosso corpo. Só que a minha vazou durante a noite, molhando minha roupa e o saco de dormir. Que merda. Tive que tirar a camisa e o underwear e vestir o único fleece que tinha. Como o saco molhou, dormi com o anorak para nao molhar a única roupa que sobrou.

acordamos umas 10h e fiz o café. por volta do meio-dia, um grupo de brasileiros que havia feito o cume no dia anterior estava descendo e nos aconselhou fortemente a atacar de Plaza Cólera (400m acima). Nao pensamos duas vezes e resolvemos subir. Eu estava me sentindo cada vez melhor, mas o Márcio ainda estava desconfiado e preferiu levar mais peso do que eu. Levamos somente o necessário para dois dias.

Em 3h chegamos a Cólera e armamos o acampamento. A partir desse momento, Márcio comecou a vomitar e nao comia mais. Fui verificar a saída da trilha para o cume enquanto ele foi buscar gelo para fazermos água e comida. Quando voltei para a barraca ele estava prostrado num canto. Pegou pouco gelo e nao conseguiu acender o fogareiro. Realmente o fogareiro deun pau. Desmontei e montei ele várias vezes e nao achava o defeito. Márcio continuava dormindo e iso chagou a me irritar. Ainda nao tinha entendido a extencao do seu problema. Pedi pra ele buscar ajuda, Se nao conseguíssemos ligar o fogareiro, teriamos que descer no dia seguinte. Sem água, sem cume. Ele trouxe um guia que descobriu o problema e o fogareiro voltou a funcionar. Gracas a Deus.

Enquanto fazia uma sopa, Márcio voltou a dormir. Nao comeu quase nada e fiquei até as 23h fazendo água com o gelo que tinha. Deu pouco mais de um litro. Nao tinha jeito, teria que fazer mais de manha, antes de sairmos para o cume. Ja tinha reconhecido o problema do Márcio e sabia que teria que assumir as funcoes a partir dali. A situacao havia se invertido. Que coisa louca é a montanha.

Acordei as 4h e fui buscar gelo e comecei a fazer água. O frio era intenso. Quando estava terminando, mandei o Márcio se arrumar. Duas horas para fazer uns 4 litros de água. Partimos as 6h e lentamente fomos subindo a montanhas. Saímos de 5.970m e o objetivo era a 6.962m. Quanto mais alto, mais lentamente subia o Márcio e toda hora tinha que esperá-lo. Percebi a sua luta e sua forca e tentei ajudar o máximo. Chegamos em Independência umas 11h. Comemos alguma coisa e subimos uma rampa técnica com gelo duro no início e fofo no final. Estávamos usando os grampons desde que saimos. Havia muito gelo na montanha ianda. Fiquei preocupado com o possibilidade do Márcio escorregar na rampa. Ele nunca havia usado equipamento de gelo. Eu havia ensinado, mas na prática é outra história. Mas ele se saiu bem.

Quando viramos a rampa, passou a ventar violentamente e de frente. Avancamos por duas horas contra o vento e isso foi minando nossas energias. Mas chegamos na canaleta as 14h. Havia muita gente subindo. Vários grupos. Paramos um pouco na base da canaleta e deixei a mochila. Peguei apenas a máquina fotográfica e uma garrafa de água. Combinei com o Márcio que nao iria mais esperá-lo pois estava preocupado com o tempo. Ele concordou e segui na frente. Depois de quase 3h para subir os 300m restante, cheguei no cume. Estava bem cansado e sentei para descansar. Logo veio o Juan (espanhol que fiz amizade na subida) e me deu uma grande abraco. Ainda estava e alfa. Mas me levantei e tirei umas fotos, pedi para ele tirar umas fotos minhas. Fiz fotos pra ele, etc.

Fiquei esperando o Márcio por mais de uma hora e nada. Estava ventando e estava ficando com muito frio. Comecei a suspeitar que o Márcio havia desistido. Mas com 10 min de descida, eu o encontrei. Ele queria ir para o cume de qualquer jeito e estava com um grupo que o adotou. Eu já estava muito desgastado e resolvi esperá-lo pra descer. Preferi poupar as minhas energias para ajudá-lo na descida. De qualquer forma, ele já havia combinado com um guia para ajudá-lo. Fiquei mais aliviado.

Márcio estava irreconhecível. Mas um gerreiro como sempre. Chegou no cume 2h depois de mim. Levou quase 5h no canaleta. Já eram 19:30 quando nos encontramos. Estava tarde, mas o tempo estava muito bom. Com uma cordinha amarrada na cintura, o guia (Juan) foi descendo com ele na frente. Juan ia guiando sua descida e aparando suas quedas. Toda hora o Márcio caía. Parecia um bêbado. Uma hora até o guia passou mal e vomitou. Caramba, todo mundo sofre alguma coisa nesse lugar. Eu ia atrás dando os comandos de voz para o Márcio. Ele nao entendia nada que o guia falava e eu é quem dava os comandos. Que doideira.

As 22h, com o dia escurecendo, chegamos no acampamento. Estávamos exaustos. Márcios mais do que isso, estava esgotado. Foram 16h de atividade. Tinhamos apenas meio litro de água e eu estava morrendo de fome. Mas eu queria só dormir. Entramos na barraca de apagamos.

O vento comecou a aumentar durtante a madrugada e vinha em rajadas cada vez mais fortes. Parecia que iria arrancar a barraca. Primeiro vinha um zunido de longe e depois parecia que iríamos voar. Acordei pra nao dormir mais. O tempo piorava e seria cada vez mais dífícil descer. A previsao era que o tempo iria piorar nos próximos dois dias. Como o Márcio nao conseguia comer nem beber, quanto mais tempo ficássemos, mas perigoso seria para ele. Sai da barraca e reforcei todas as amarras e isolei a parte da cozinha pra fazer comida e água. Até que ficou bom. Preparei tudo e nos hidratamos e comemos um pouco. Márcio só dormia. Nao tinha forcas. Eu ficava movendo ele de um lado para outro na barraca para pode ajeitar as coisas.

Decidimos descer apesar do vento. Seria uma tarefa difícil, mas conseguimos. Ia fazendo a parte mais pesada e coordenando as coisas. Levamos uma hora naquele vento para arrumar tudo. Peguei a mochila mais pesada e quando coloquei nas costas, cai no chao com o vento. Tava impossivel. Mas comecamos a descer. A todo o instante tínhamos que parar e nos apoiar nos bastoes para nao cair. Tomamos várias quedas. As rajadas eram cada vez mais fortes e minha mao congelou.

Mas a medida que decíamos o vento diminuía e o tempo fechava na montanha. Em 6h chegamos mais uma vez esgotados em Plaza de Mulas. Recebemos os vivas no abrigo e pedidos uma merecida pizza. Márcio conseguiu comer. Era a concretizacao do nosso sonho. Chegar no topo era só metade do caminho.

Agora estamos aqui em Mendoza de volta a vida boa. Na contabilidade eu perdi 7kg e o marcio quase 4kg. Estou com algumas feridas no nariz e os dedos dormentes ainda. Márcio está com os dedos dos pés no mesmo estado. Agora só pensamos em comer e dormir.

Nao tenho como explicar porque enfrentamos tudo isso pela simples paixao de escalar uma montanha. Só posso dizer que está no meu sangue. Que aprendo muito com cada momento e sempre volto diferente. Dando valor cada vez mais as coisas simples da vida. Dando mais valor e respeito a natureza. Foram dias que eu realmente vivi. Intensamente.

Carlao

Cume!

10/01/2008 by

Nunca imaginamos aonde estavamos nos metendo…

Chegamos em Nido depois de 8 horas de caminhada. O Carlão estava bem cansado. Comecei a duvidar de nosso sucesso. Montamos a barraca e dormimos.

No dia seguinte encontramos os brasileiros que nos sugeriram atacar do acampamento de cima: Colera. Desmontamos a barraca e subimos. Coloquei muito peso na minha mochila. Montamos a barraca novamente e dormimos.

A noite vomitei duas vezes. O Carlao acordou todo molhado, pois, sua garrafa tinha vazado dentro do saco de dormir.
O terror estava instalado!!!

Às quatro da manhã acordamos para derreter gelo. Começamos a subir as 6:20. Depois de 11 horas o Carlao chegou lá. Eu cheguei depois de 13. Pedi um guia argentino pra me ajudar a descer. Ele amarrou uma cordinha em mim e fomos descendo vagarosamente. Foi um terror, mas conseguimos.

Amanhã vamos a Punta del Inca passar o dia descansando. Depois estaremos em Mendonza, no hotel Confluenza, na rua Espana com Las Heras. Quem quiser nos visitar de uma passadinha lá. Pois outro desafio vira: Ojos

Valeu Galera! Cume! Saudades!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Marcio